terça-feira, 25 de julho de 2017

Nem toda viagem é boa

O fato de, em 2013, ter sido resgatada pela Alemanha de um tenebroso período psicológico e emocional vivido nos anos antes acabou por convencer meu inconsciente de que uma viagem para lá é capaz de resolver todos os meus problemas. Só que não (vamos trazer os meses modernos pra esse blog esquecido). Mas vamos por partes. Passei boa parte do ano passado pensando sobre a necessidade de fazer um intensivo de alemão na Alemanha para, depois de duas tentativas fracassadas, passar na proficiência de nível B2. Por mais que eu tenha certeza que não sou a pior professora de alemão do universo, parar de fracassar na proficiência me deixaria mais tranquila para os meus próximos passos profissionais (sejam eles quais forem - meus queridos amigos de Publicidade já estão fundando uma escola pra mim, praticamente, como logo, página no Facebook e cartõezinhos). Com o aumento absurdo do Euro, acabei deixando essa ideia apenas como uma ideia, até receber um e-mail muito querido do pessoal da Alemanha, o qual me convenceu a olhar os preços das passagens. Não só estava barato (menos da metade do preço que paguei das outras vezes), como o preço também diminui uns 100 reais durante a semana que enrolei para comprar. Além de tudo, meu irmão, ainda mais falido que eu, estava disposto a me emprestar dinheiro e me pedia diariamente se eu já tinha comprado a passagem. Até que comprei. Isso era outubro. O curso só reservei no fim de janeiro (depois de arrombar minha poupança) e os salários seguintes foram gastos em Euros para não morrer de fome durante as cinco semanas que eu passaria em Berlin. 

Em fevereiro meu pai faleceu e, por mais que eu estivesse preparada para isso, me surpreendi com o cansaço que se apossou do meu corpo nos meses seguintes. Eu, a pessoa que sempre arruma algo com o qual se ocupar. Com a morte do meu pai, veio a parte burocrática para sanar a vontade de alguns para a abertura do inventário, enquanto eu tinha que espantar 'amigos' que adoravam visitar/ligar para a minha mãe dando palpite no inventário, criticando o fato do meu pai ter sido cremado (ao que parece o fato de ser um desejo dele não torna isso menos horrível) ou mesmo dispostos a convencer toda a família de que minha mãe não está psicologicamente bem (porque é impossível, para alguns, que ela não esteja passando as noites em claro chorando). Enfim, eu realmente estava com esperança de que a Alemanha restabelecesse minhas energias. A bem da verdade, passei semanas sem pensar na viagem, mas em algum momento tive que encara-la e conclui que talvez tivesse sido bom tê-la programado. Mas talvez não tenha sido.

Quando cheguei lá, tudo ok, encontrei só amigos e nem tive tempo para pensar direito. Mas aí eu fui para Berlin, para o apartamento que eu ia dividir com duas gurias, sendo que uma delas dividiria o quarto comigo. Tudo certo também. No dia seguinte teria o teste de nivelamento e, óbvio, eu almejava o nível final do B2 para realmente me preparar para a proficiência. Fiz a prova e, pela primeira vez na minha história de estudante, não estive entre as primeiras a terminar. Fiz tudo tranquilamente. De noite, quando peguei o resultado, meu nome não estava no nível que eu queria, mas conversei com algumas funcionárias da escola e elas me disseram para falar com o coordenador. Ok. Fui no outro dia cedo e conversei com ele. Muito simpático, apesar de ter criticado de forma meio humilhante meu texto, disse que eu deveria frequentar o nível B2.1 por dois dias e depois ele conversaria com os professores. Ok. 

Cheguei na turma e fui a maior tagarela de todos os tempos, não só porque eu estava tranquila quanto ao meu nível de conhecimento, mas também porque os outros falavam menos. Passaram-se os dois dias e o professor veio falar comigo ao fim da aula, ele não estava completamente convencido de que eu podia passar de nível. E, por mais que ele falasse isso simpaticamente, ao mesmo tempo que dizia que poderia aprovar a mudança de nível se eu me comprometesse a estudar em casa, quando me dei por conta eu estava chorando como uma condenada. Era simplesmente a gota d'água. E quando eu vi estava falando da morte do meu pai, de como não tinha conseguido me preparar para o curso como tinha planejado e sabe-se lá o que mais. Eu simplesmente não conseguia parar de chorar! Me despedi do professor e fui ao banheiro lavar o rosto. Na saída, encontrei o coordenador e quando eu vi recomecei a chorar (na verdade nem sei se eu tinha parado). Fomos para uma sala e expliquei que, na verdade, eu não sabia porque estava chorando, não tinha relação nenhuma com o curso, até porque eu iria para o nível que eu queria. O coordenador, coitado, não sabia o que dizer. Tentei justificar, dizer que talvez fosse porque pela primeira vez eu estava sozinha e, perto do meu irmão e da minha mãe, eu tentei me manter sob controle (em algum momento da minha vida, convenci a família toda de que eu resolvo tudo e aguento tudo - prova disso é que, no meu período de au pair, enquanto todos os alemães estavam apavorador por eu viajar sozinha, meus pais não estavam nem aí, achando a coisa mais normal do mundo). Aí o coordenador me disse: "Esse tempo ruim de Berlin também não ajuda, mas vá passear, conversar com pessoas". E eu tive que esclarecer que o problema não era Berlin, eu amo Berlin. Se havia um problema com Berlin talvez fosse que, inconscientemente, ela me lembrava meu pai e toda a minha infância ouvindo-o sonhar com a cidade e com a família alemã (ambas as coisas ele conheceu em 2013). Mas o problema mesmo, provavelmente, eu disse, era que eu não tinha me dado tempo para estar triste e o coordenador me disse uma coisa que, por mais óbvia que fosse, me aliviou por uns dias: "Você também é uma pessoa, não é de gelo."

Independentemente do que fosse dito eu continuava a chorar. Tanto é que no trem, de volta pra casa, uma senhora sentou ao meu lado e me deu paninhos de papel dizendo que entendia o que era ter dias assim e que às vezes o melhor era simplesmente chorar. Essa lógica junto com o comentário de uma amiga num post que fiz um dia após o velório do meu pai (ela disse "pare de se preocupar com os outros, se preocupe contigo" e demorei semanas para entender o que ela quis dizer), me fez perceber que o problema era mesmo o fato de eu não ter me dado o tempo que eu precisava para assimilar tudo isso. E quando eu digo 'tudo isso' não falo só da morte do meu pai. Em 2015, fui para a Alemanha visitar um senhor que estava muito doente - e ele faleceu um mês antes de eu chegar lá. No segundo semestre daquele ano, me reaproximei de um amigo virtual (tanto é que ele, o terrorista-mor, admitiu ter medo de mim) que me ajudou no projeto da monografia - e em fevereiro de 2016 ele faleceu. Resolvi visitar a filha dele no Recife e a amiga que me hospedou também perdeu um amigo nos dias que eu estava lá. Tentei consolá-la com minhas próprias perdas, algumas de anos antes, e passei as cinco horas de ida para Maceió chorando feito uma condenada. Pra completar, quando estava voltando para o RS, fiquei sabendo que o meu avô de coração tinha caído e quebrado o fêmur - claro que comecei a chorar feito uma louca e doze horas depois estava no hospital com ele. Tudo se resolveu bem, mas as complicações da Diabetes se ampliaram no fim do ano passado e passei muito tempo no hospital com ele. No fim do ano ainda tive que ouvir de um médico que o meu avô, pai da minha mãe, tinha possibilidade de ter câncer (não confirmamos, já que meu avô tem energia pra se rebelar e se negar a ficar no hospital pra fazer biópsia). Enfim, acho que exigi demais do meu emocional e do meu psicológico nesses últimos anos. O que me faz ter certeza que minha amiga está certa: me ocupo demais dos outros, tentando ajudar e mostrar que tá tudo bem, e me deixo pra depois (um depois que nunca chega). 

Mas aí eu tive quatro horas diárias de aula e elas me deixavam exausta demais para que eu me deixasse pensar sobre isso, que dirá me dar o direito de retomar a choradeira quando ninguém estava olhando. Nos fins de semana encontrei os parentes e me senti uma péssima convidada. Eu realmente estava exausta e, por mais que me esforçasse, não conseguia manter uma conversa sequer. No terceiro fim de semana fugi dos compromissos com parentes e fiquei batendo perna apresentando Berlin à uma amiga. Realmente andarilhar por aí sempre faz bem ao meu psicológico (parei de chorar depois de seguir o conselho do coordenador e passar umas horas andando por Berlin). Passar na prova do curso fez com que eu me sentisse um pouco menos fracassada. Mais de uma vez, durante aquele mês, me perguntei se realmente sou boa o suficiente para continuar dando aula de alemão, apesar dos meus amigos estarem convencidos de que em algum momento vou ter uma escola de alemão fabulosa. Nesses momentos tive que reconhecer que outra coisa me pesa muito: essa mania das pessoas de acreditar que eu sou capaz de tudo e, pior, de que eu sou capaz de fazer tudo otimamente bem. Eu sei, é ridículo, mas também é preocupante ver que os outros acreditam mais em tu do que tu mesma. Devia me animar, mas me assusta. 

Passei o último fim de semana com os parentes e todas as noites dormi umas 10 horas a fio - e mesmo assim continuava exausta. Minha última caminhada por Berlin foi em tom de obrigação para comprar as encomendas da minha mãe e outras coisas mais. Quando vi estava gastando uma nota em livros para dar aula em vez de me realizar comprando uma camiseta do Hertha. Pela terceira vez me prometi em vão fazer isso. E de novo eu investi mais nos outros do que em mim mesma. Também não fui no Museu da DDR, no qual eu tinha me prometido ir. A mulher do meu primo salvou minhas energias ao me levar à Spreewald, uma floresta com trilhas e rios lindos (sem fotos aqui porque esse post é de desabafo mesmo). Minha última parada seria na casa de uma amiga au pair, que tinha ficado na Alemanha e havia acabado de concluir o mestrado ali. Obviamente que esses anos da minha amiga não foram fáceis, mas ali estava ela, direcionada para algum lugar, enquanto eu percebia que estava completamente perdida e me perguntava o que havia feito nesses anos. A bem da verdade, estava ansiosa para voltar ao Brasil, apesar de só ter reencontrado e conhecido pessoas ótimas na Alemanha - como sempre. 

Eu estou de volta e, enquanto tento sorrir e dizer que a viagem foi boa, tento me lembrar do que me prometi fazer: me dar um tempo para fazer nada; parar de ficar correndo atrás de pessoas para marcar encontros e coisas assim; parar de tentar resolver tudo sempre; enfim, parar de querer fazer mil coisas ao mesmo tempo. Não está sendo fácil, para não dizer que estou fracassando imensamente nisso. Mas, para não dizer que tudo tá horrível, fiz a prova de proficiência semana passada e acho que dessa vez eu não reprovo (passei a semana anterior à prova estudando como nunca, o curso em si não foi um bom preparativo). Obviamente que esse post não é motivador para ninguém, mas vocês precisam saber que eu preciso parar um pouco e não consigo - me obriguem! Vocês precisam saber que eu não consigo resolver tudo, apesar de querer e tentar. Mas, especialmente, vocês precisam saber que eu não tô na melhor das minhas fases, apesar de teimosa e inconscientemente tentar fazer isso passar batido. 

Não, não foi uma boa viagem, mas talvez uma viagem ruim seja necessária. Para mim foi. Eu só preciso ter a oportunidade de admitir isso - eis a razão desse post. 

P.S.: Talvez esse post devesse estar lá no Blogário, mas não acho legal tirar os posts empolgados da primeira vista, porque tem muita gente que vai lá atrás de orientações sobre au pair (também não sei a razão), então achei menos pior vir chorar as pitangas aqui, já que, por alguma razão, esse buraco na blogosfera ainda existe. 

2 comentários:

Lúcia Soares disse...

Vai ser bom para vc esse desabafo. Aconteceu isso mesmo: você não se deu tempo de sofrer a morte do seu pai. Ou porque outros precisavem de vc, ou pq você se negou a aceitar, mesmo inconscientemente. As coisas vão se ajustando, por mais difíceis que sejam. Fique bem. Fortaleça-se da maneira que quiser, saindo com amigos, curtindo a casa ou trabalhando. Tudo vai se ajustar. Beijo.

Denilson Monteiro disse...

De um certo modo me vi há 23 anos quando minha mãe morreu. Ela era uma bipolar cujas crises sempre começam em período natalino, sendo que a última, como não poderia deixar de ser, começou em novembro e ela partiu no dia 26 de dezembro. Durante um uns dois meses eu tinha atitudes que pouco tempo depois eu me perguntava o porquê de tê-las tido. Uma dessas atitudes foi ter terminado um namoro que ia bem. Mas quatro anos depois, houve um reatamento que dura 20 anos e um filho. O pai do Sabino não estava errado não.